terça-feira, 14 de outubro de 2008

Teatro das sombras

As figuras, que eram sombras no lençol amarelado. Gesticulavam e tinham suas falas, nada era ensaiado, tudo era o improviso. Os diálogos surgiam no calor da situação fomentada por momentos passados e magoas profundas, as personagens agitavam-se, porque a discurção aumentara.
- Você se comporta como uma prostituta barata!!! Porque rasteja aos pés dele??? Ele só vai te usar!!!!!
- Mas eu estou tão feliz!
-Não importa porque é isso que você é, uma puta chula!
E tudo escurece, porque os personagens envolvidos dormem. Um deles pelo menos, o outro chorou até um mar salgado lhe cobrir por completo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Não sou daltônica!

Eu não tenho dimensão de certas coisas. Não sei lidar direito com pressão, me sinto acuada, como um bicho do mato que se perde e cai na cidade. E ouvia os trovões, parecia próximo demais, uma tempestade, alguém comentou que em outro lugar chovia muito. E só caia aquela garoa e lá no fundo vi um arco-íris, daí tive a certeza que tudo ficaria bem e a noite depois de umas lágrimas, o abraço, o alívio e o sono.

A.A.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Balão vermelho

Balão Vermelho_Paul Klee
Eu Não Peço Desculpa


Composição: Jorge Mautiner


Eu não peço desculpa

E nem peço perdão

Não,não é minha culpa

Essa minha obsessão

Já não agüento mais

Ver o meu coração

Como um vermelho balão

Rolando e sangrando,

Chutado pelo chão


Psicótico,

Neurótico,

Todo errado...

Só porque eu quero alguém

Que fique vinte e quatro horas do meu lado

No meu coração, eternamente colado...

No meu coração, eternamente colado... *


*Ele me disse que essa muzga foi feita pra mim, e fiquei me perguntando o por quê?


segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Andanças

Quando saia do cinema, me senti como se estivesse numa outra cidade, num outro país, onde ninguém soubesse que língua eu falava, e nem estavam interessados em saber qual era. Caminhei bastante porque precisava, e ninguém me notou ou notaram as lágrimas que rolavam e rebolavam pelo meu rosto. Caminhei, olhava para o céu nublado meio marrom, os carros passavam depressa e agitava o ar, e eu com o rosto queimando de tanto chorar, até podia ouvir as batidas do meu coração que acompanhava cada passada minha. Como um barulho surdo de um bumbo, segundo após segundo, e quando eu parava ficava mais alto e mais forte. Poderia andar até chegar em casa, mas meu joelho começou a reclamar, santa invisibilidade, minha casa é a rua e meu pai é a Lua escondida entre as nuvens. Solidão foi hoje minha companheira.
Preciso agradecer a um anjo de nome Fabiana, que com seu jaleco branco me deu um abraço tão fraternal que poderia dormir o sono dos bravos. Acordar forte. Mas me falta bravura e somente gostaria muito de dormir e acordar amanhã...

domingo, 24 de agosto de 2008

Dormir

Esperar esta chuva passar, mas logo ela vai embora, dias assim, esperar tudo passar de forma bem paciênte. As vezes eu queria dormir e acorda só na segunda-feira, porque pelo menos ocupo minha cabeça com algo. O silêncio me mata, fico pensando mil coisas, da mesma forma que ele, é eu sei que o rémedio sempre é mais amargo.

Inventar e reinventar, sinto-me mediocre no meu desespero.

Meu nome não sei mais além do que vê. E quem vê?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ontem

Por que as pessoas precisam perder-se tanto?
Para enfim descobrirem-se tão diferentes do que pensavam que eram.
Por que percorrer tantas esquinas?
E entender precisar pousar em apenas um lugar.
Por que beijar tantas bocas famintas?
Até compreender que a boca que você gostaria unicamente beijar,
Está a cargo do destino.
Por que sorrir amarelo cem vezes ao dia?
Enquanto por dentro você chora e quer gritar...
Por que querer se matar?
Se o que você realmente quer é viver.

****
Em algum lugar de mim,
Ouvi a canção morna da manhã.
Em algum canto em mim,
Senti o sabor doce da presença.
Em vezes em meu pensamento,
Posso tocar os devaneios, frutos da saudade.
E ser eu.
Tão somente.

Em alguns momentos faço troça da dor.
Brinco de mentir a mim mesma.
Quando que em certas ocasiões sou coadjuvante da minha história.
Então me desfaço destas quinquilharias do sentir,
E sou todo o rompante do ser.

***
Formam-se vozes
Empertigadas no escuro
Havia os risos nos olhares taciturnos.
Ouviam-se os passos.
Tudo isso atrás da porta.
Por sobre o aço.
Que enferrujou com os anos,
Mas não envelheceu os homens.
Que discursaram com seus preâmbulos.
Sente-se o silêncio.
Sussurros...
Entende-se o armistício.
Amam-se por fim.
Tocam-se sem fim.

A.A.

domingo, 3 de agosto de 2008

Ensaio

Romantismo
Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!...
Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! Quem tivesse... (Mas quem tem? Quem teria?)
Cecília Meireles*
*Cecília eu tenho!